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09/12/09

Gracinha hoje virou planta. Escolheu o jardinzinho para abandonar o corpo e permanecer.

Falamos sobre a diferença entre percepção e sensação. Isso porque ela contou da dificuldade de permanecer em sala trabalhando sozinha.

Hoje brincamos de cegueira. E ela cruzou mundos, de olhos fechados.

“Todo cego tem o direito de dizer ‘eu me imagino’. E se imaginar é ter imagem.” (Eugen Bavcar)

Permanecer, para descobrir pausas e silêncios. Durar, ao invés de suceder. Duração é diferente de sucessão, Bergson já nos disse.

Andréa

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01/12/09

Em nosso encontro de hoje conversei um pouco com Andréa e ela me deixou na sala para que eu começasse o  trabalho.  Amontoei meus objetos em um canto da sala e fiz o meu costumeiro exercício de respiração. Adotei esses exercícios de respiração para minha vida, me faz muito bem. Depois escolhi um objeto para trabalhar, uma mantilha de renda vermelha. Não planejei, simplesmente escolhi. Fui surpreendida por Andréa, a me fazer uma observação. Eu estava trabalhando o objeto seguindo a fluidez do tecido. É como se eu tivesse colocado meu corpo em segundo plano. O tecido estava levando meu corpo e não o meu corpo levando o tecido. Deixei a mantilha para lá e continuei meu trabalho corporal.

Quase no final do encontro, Andréa me fez uma proposta nova, um novo desafio. Trabalhar todos os movimentos que eu já absorvera, dançando.  Trabalhar nesses movimentos, a velocidade, tônus muscular, etc. Ela me deixou sozinha e eu me propus a trabalhar por trinta minutos. Imediatamente ao iniciar o trabalho, veio o juízo de valor, “o que fazer?” Continuei trabalhando, mais por disciplina do que por vontade. Foi uma meia hora muito longa. Senti o tempo inteiro, a sensação do “não sei fazer”. Senti muita dificuldade. Senti dificuldade até para descrever a sensação.  Mas fiz, não sei o quê.

Graça

01/12/09

Quando decidi propor este trabalho para Gracinha, há alguns meses, a minha vontade primeira foi de ter a oportunidade de dirigi-la em cena. Criar um novo contexto onde pudesse dispor – ao mesmo tempo no espaço íntimo da sala de trabalho e no espaço público da cena – de sua vitalidade e alegria, que tanto me atraem, assim como de sua finíssima inteligência corporal.

Junto a isso vem tudo o mais que me mobiliza, o interesse pelas diferentes formas de habitar o mundo, os modos de existência, a forma como isso se inscreve no corpo e na escrita dramatúrgica de  cada artista.

Como diretora, a questão de sempre: como tocar em tudo isso? O quanto de delicadeza e habilidade me exige essa aproximação? Apesar da infinidade de questões que surgem, na convulsão de um processo criativo, bastam-me essas para que um desafio se atualize em desejo.

Clarice, sempre, aos possíveis leitores da Paixão segundo G.H.: “(…) Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar.(…)”

Esse tempo de aproximação – disfarçado sob o nome de pesquisa – é um investimento na consistência de um encontro. Dirigir um trabalho é diferente de conduzir uma aproximação. Nem sempre conduzimos aproximações em nossos processos criativos, e essa questão me interessa, porque intuo que ela está no cerne de uma possível autonomia em nossas maneiras de fazer, éticas e estéticas. Tem a ver com formas de habitar o mundo, que tem a ver com produção de sentido, que tem a ver com dançar, que tem a ver com escrita dramatúrgica, que tem a ver com dar a ver, que tem a ver com estética, que tem a ver com política, que tem a ver com o que nos tornamos, e assim por diante.

Andréa

26/11/09

Eugênio Barba e Julia Varley, na foto de Sidney Souto

No meio de tudo, outro atravessamento: Eugênio Barba e Julia Varley, em Fortaleza. Lembrar dos “princípios que retornam”  mais de 20 anos depois da primeira leitura, deixa presente um longo caminho trilhado até aqui. Foi na antropologia teatral que encontrei pistas fundamentais para o meu trabalho, quando pouco tinha houvido falar sobre dança contemporânea. Por isso minha atitude para com todo esse conhecimento sistematizado por Barba e pelo Odin me inspira profundo respeito, ainda hoje e sempre, porque me tornaram capaz de fazer boas escolhas como coreógrafa e me deram ferramentas de trabalho.

Lembro mais uma vez de Clarice: “Existe uma trajetória e a trajetória não é apenas um modo de ir. A Trajetória somos nós mesmos. Em matéria de se viver, não se pode chegar antes.”

Barba: ” O que me toma pelo estômago no ator é a vulnerabilidade. Hoje a criatividade consiste em preservar a autonomia do trabalho, e não em fazer mais um espetáculo.”

Andréa

24/11/09

Nosso encontro, hoje, foi um dos melhores pra mim, senti alimentado o meu espírito com a conversa que tivemos, eu, Andréa e Sâmia. Só conversamos, e não precisava  ter acontecido nada mais, pois nosso encontro foi pleno. Conversamos sobre autonomia e hegemonia. Na verdade, hoje senti muita vontade de vir, como que prevendo que ia ser muito bom. Troquei os objetos pessoais por outros. Cheguei, sem planejar nada, intuindo que o encontro seria bom.

Começamos uma conversa muito agradável. Falei sobre o incômodo que Andréa sentia em relação a autonomia, que eu supostamente deveria ter, já tínhamos discutido sobre isso no encontro anterior. O que ela (Andréa) sentia como submissão, eu interpreto como excesso de confiança e admiração, o que me faz querer que ela aponte algum caminho para eu seguir.

Ciente dessa situação,  sinto que talvez isso me afaste um pouco da “brincadeira”. Quando digo isso,  refiro-me a assumir uma dose maior de responsabilidade, o que causa o referido afastamento, ainda que por um certo tempo, até que todo o meu ser absorva e relaxe outra vez.

Preciso dizer que esse trabalho sempre foi muito desafiante para mim, desde o início, o que significa que a “brincadeira” a que me refiro não se trata de “pão e circo” (plagiando a expressão da Andréa). Falo da brincadeira que  contempla o brincante, o tempo de fazer algo para si próprio.  Isso acaba quando temos que administrar a  liberdade que é conferida aos nossos fazeres.

Falamos ainda de uma expressão que ficou em minha cabeça: “limpar a dança”. Quando faço qualquer trabalho coreográfico e passo para os dançarinos, uma vez absorvida por eles, uso o termo, limpar a coreografia. O que é esse “limpar”?  Que assepsia precisamos fazer em uma coreografia? Isso me fez pensar muito. Pois a nossa limpeza trata de deixar todo mundo igual. Para onde vai  a particularidade de cada um? Não limpamos (pelo menos eu) pensando em deixar cada um se apropriar da coreografia do seu jeito, pelo contrário,  tiramos todas as singularidades de cada um. Estou realmente pensando nisso.

Graça

24/11/09

Foi natural e espontâneo: chegamos na sala de trabalho, as três, e começamos a conversar. O tema da “autonomia” ficou em nossos pensamentos nos dias que se seguiram à primeira conversa, e não foram poucas as questões geradas para cada uma.  Quando percebemos, mais de duas horas haviam se passado, e nós ali, a conversar. Os assuntos se encarrilharam, e a conversa fluiu de forma deliciosa: experiências, modos de existência, maneiras de fazer, diferenças e semelhanças, nos processos criativos e na vida.

Andréa

“(…) Sabia muito bem que tipo de desordens a consciência provoca na graça natural de um homem…” (HEINRICH VON KLEIST)