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Archive for the ‘Diário de Bordo – Andréa’ Category

as batucadeiras de Cabo Verde

fotografei essa vitrine em Cabo Verde porque achei a cara da Gracinha, com caldas de pavão e tudo o mais...

Acabo de chegar de uma semana em Cabo Verde, com mais 110 artistas da dança cearense. Infelizmente Gracinha não foi. Mas esteve conosco o tempo inteiro, nas cores e na alegria que compartilhamos, na simplicidade dos modos de existência, na largueza dos sorrisos, na pureza dos olhares e na potência dos encontros.

“É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração…” (Vinícius de Morais)

Andréa

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pássaro formoso

O apelido de Graça é Pavão.

“Pavão misterioso
Pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não…

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar…”

(Pavão Misterioso, Ednardo)

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Entrar em outro processo é sempre uma caixinha de surpresas, mas começar um processo com uma pessoa alheia ao nosso cotidiano é nos colocar de frente a um universo de possibilidades antes nunca tocado.

Graça. Divina, alegre.

Um corpo sorridente, cheio de memórias de uma vida de sertão, cantigas de roda, procissão. Mãos que fazem castanholas titirintar no espaço dançado com firmeza e prontidão. Um corpo apaixonado pelo Coco e não gosta do Torém – não gosta porque nessa dança não se pinota. Lagarta pintada quem foi que te pintou? Quando só, se perde num mundo desconhecido, menina-mulher que não se conduz só ou ainda não aprendeu. Autonomia, mulher, vai e trace seu dançar, pule, cante,conduza seu espaço e encontre vazios que poderão ser chaves para um trabalho investigativo, voe se possível. Entre suas graças, surge um altar recriado por suas coisinhas, um chale, uma rosa amarela, brincos, suas castanholas, leque e um pavão maquiado.

Mas Graça ganhou autonomia, aprendeu a voar, virou planta, tateou a parede e foi.

Gracinha virou uma mocinha, anda com suas próprias pernas. Entre requebrados e vestígios de um misto de danças populares ela se move pelo espaço. Está tudo ali, gravado em seu corpo-brincante, seu corpo-dançador, seu corpo-graça. De cantigas e riso fácil vai se construindo um caminho.

Sâmia

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Gracinha hoje virou planta. Escolheu o jardinzinho para abandonar o corpo e permanecer.

Falamos sobre a diferença entre percepção e sensação. Isso porque ela contou da dificuldade de permanecer em sala trabalhando sozinha.

Hoje brincamos de cegueira. E ela cruzou mundos, de olhos fechados.

“Todo cego tem o direito de dizer ‘eu me imagino’. E se imaginar é ter imagem.” (Eugen Bavcar)

Permanecer, para descobrir pausas e silêncios. Durar, ao invés de suceder. Duração é diferente de sucessão, Bergson já nos disse.

Andréa

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Quando decidi propor este trabalho para Gracinha, há alguns meses, a minha vontade primeira foi de ter a oportunidade de dirigi-la em cena. Criar um novo contexto onde pudesse dispor – ao mesmo tempo no espaço íntimo da sala de trabalho e no espaço público da cena – de sua vitalidade e alegria, que tanto me atraem, assim como de sua finíssima inteligência corporal.

Junto a isso vem tudo o mais que me mobiliza, o interesse pelas diferentes formas de habitar o mundo, os modos de existência, a forma como isso se inscreve no corpo e na escrita dramatúrgica de  cada artista.

Como diretora, a questão de sempre: como tocar em tudo isso? O quanto de delicadeza e habilidade me exige essa aproximação? Apesar da infinidade de questões que surgem, na convulsão de um processo criativo, bastam-me essas para que um desafio se atualize em desejo.

Clarice, sempre, aos possíveis leitores da Paixão segundo G.H.: “(…) Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar.(…)”

Esse tempo de aproximação – disfarçado sob o nome de pesquisa – é um investimento na consistência de um encontro. Dirigir um trabalho é diferente de conduzir uma aproximação. Nem sempre conduzimos aproximações em nossos processos criativos, e essa questão me interessa, porque intuo que ela está no cerne de uma possível autonomia em nossas maneiras de fazer, éticas e estéticas. Tem a ver com formas de habitar o mundo, que tem a ver com produção de sentido, que tem a ver com dançar, que tem a ver com escrita dramatúrgica, que tem a ver com dar a ver, que tem a ver com estética, que tem a ver com política, que tem a ver com o que nos tornamos, e assim por diante.

Andréa

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Eugênio Barba e Julia Varley, na foto de Sidney Souto

No meio de tudo, outro atravessamento: Eugênio Barba e Julia Varley, em Fortaleza. Lembrar dos “princípios que retornam”  mais de 20 anos depois da primeira leitura, deixa presente um longo caminho trilhado até aqui. Foi na antropologia teatral que encontrei pistas fundamentais para o meu trabalho, quando pouco tinha houvido falar sobre dança contemporânea. Por isso minha atitude para com todo esse conhecimento sistematizado por Barba e pelo Odin me inspira profundo respeito, ainda hoje e sempre, porque me tornaram capaz de fazer boas escolhas como coreógrafa e me deram ferramentas de trabalho.

Lembro mais uma vez de Clarice: “Existe uma trajetória e a trajetória não é apenas um modo de ir. A Trajetória somos nós mesmos. Em matéria de se viver, não se pode chegar antes.”

Barba: ” O que me toma pelo estômago no ator é a vulnerabilidade. Hoje a criatividade consiste em preservar a autonomia do trabalho, e não em fazer mais um espetáculo.”

Andréa

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Foi natural e espontâneo: chegamos na sala de trabalho, as três, e começamos a conversar. O tema da “autonomia” ficou em nossos pensamentos nos dias que se seguiram à primeira conversa, e não foram poucas as questões geradas para cada uma.  Quando percebemos, mais de duas horas haviam se passado, e nós ali, a conversar. Os assuntos se encarrilharam, e a conversa fluiu de forma deliciosa: experiências, modos de existência, maneiras de fazer, diferenças e semelhanças, nos processos criativos e na vida.

Andréa

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