Este trabalho é antes de tudo um encontro, entre duas pessoas que se conhecem e se respeitam mutuamente há alguns anos, apesar de nunca terem trabalhado juntas, e que possuem trajetórias muito diversas, na vida e na dança. Eu, Andréa Bardawil, 38, coreógrafa que gosta de criar coisas, estudar, inventar condições de possibilidade e, de vez em quando, traçar linhas de fuga. Ela, Graça Martins, 52, dançarina folclórica, cresceu brincante na cultura popular, correndo e pulando em terra batida, riso frouxo e dança solta. Encontrou o Flamenco e de castanholas em punho, salto nos pés, criou o Grupo Tablado. No corpo, musculatura tonificada e altivez, sorriso e cores, muitas cores. Dança contemporânea, de pouquinho tempo pra cá é que lhe ganhou atenção. Queria respirar novos ares, e entender um pouco essa língua tão estranha, tão cheia de seriedade e gravidade, às vezes. (Terreno arenoso não assusta o povo do sertão.)
Enquanto Graça brincava e cantava, eu cresci como legítima representante do competitivo “planeta das academias” – jazz, sapateado, balé clássico e o que mais viesse. Referências e universos simbólicos distintos, percursos quase opostos, resultam agora num desafio lançado no meio da fervura. A questão ecoada por Gilles Deleuze, nos mobiliza a cada encontro: de que afetos você é capaz? O que pode nos atravessar nessa experiência? Processo de desterritorialização em curso: após anos trabalhando com a mesma Cia, interessa-me novamente experimentar a pesquisa corporal e a composição noutro território, menos familiar e passível de reconhecimento. Hoje, o tempo, as relações e as formas de habitar o mundo são questões que atravessam meu trabalho. Cansada, um pouco, do espírito de gravidade sobre o qual Nietzsche nos advertiu, e que parece pesar em nossos ombros em tempos de esgotamento, quero encontrar a dança que faz Graça sorrir frouxo, e quero encontrar nisso um acontecimento. Quero continuar investigando como construir dramaturgicamente uma cena potente, principalmente a partir da instauração de novos regimes de temporalidade, que experimentamos como processo, e que podem vazar para a “obra”, conferindo a ela – “obra” – muito mais a dimensão de uma experiência compartilhada, do que o status de “apresentação” ou “espetáculo”. Itinerário sensorial possível para uma pesquisa: variação de tônus muscular, exploração das articulações em movimentos lentos e contidos, fluxo livre e peso leve, características que se contrapõem ao corpo flamenco.



