O trabalho será um pouco diferente, hoje. O encontro é comigo mesma. Farei o trabalho, sozinha. Propus-me a isso desde o encontro passado. Cheguei na sala às 8:45h. Não sei quanto tempo vou permanecer. Como estou sozinha, vou inverter um pouco o processo e comecei escrevendo. Estou nesse momento andando na sala, sentindo os pés no chão demoradamente a cada passo, como que tentando absorver algum movimento impregnado nesse chão. Trouxe um cd, mas não tenho vontade de usá-lo. Trouxe os objetos pessoais, mas também não vou usá-los. Continuo andando.
Avistei um telão branco enorme do outro lado da sala, do tamanho da parede. Aproximei-me e sentei-me no chão diante dele. Olhei, olhei, olhei…. Pensei que aquele espaço branco é cheio de possibilidades e podem conter as mil cores de Salvador Dali. Ele sabe se movimentar muito bem. Ele se deixa levar pelo vento e faz movimentos perfeitos. O tecido dança dentro da tela, sem precisar sair dela e mesmo assim, tem uma movimentação muito rica. Ele se movimenta em todas as direções.
Comecei o meu exercício de respiração. Ao terminar o exercício de respiração abri os olhos e deparei-me com o teto. Pela primeira vez em tantos encontros, olhei para o teto da sala. Pensei que relação ele poderia ter com a minha dança. Levantei-me e dei alguns saltos em direção a ele, é lógico que eu sabia que não iria alcançar, isso era apenas um movimento e uma intenção.
Pensei nos sons do encontro passado e me detive a escutá-los. De repente, achei muito interessante o ranger de uma janela que estava sem apoio para segurá-la. Parei nesse som e também no movimento daquela janela que ia e voltava, ao som do vento. Resolvi seguir o movimento da janela, que seguia rangendo num balancê de ida e volta. Ora ritmado pra lá e pra cá, ora ia e demorava a voltar, dependendo do ritmo do vento. No chão, segui o vai e vem a janela. Por vezes ela ía e meu corpo ía, meu corpo voltava e ela ficava. Fiz isso por um longo tempo. Quando olhei a hora, só tinha passado dez minutos. Não acreditei. Achei que tinha se passado tanto tempo e só havia passado dez minutos! Comecei a ficar impaciente. Andei de novo pela sala e vi uma corda pendurada, do teto até a porta que dá para o jardim, amarrada para exercícios com tecido. Pendurei-me nela para me balançar. Não agüentei. Minhas mãos doeram muito. Como os meninos conseguem fazer isso? Fiz mais alguns movimentos de pé. Aqui e ali achava sem sentido. Eu sei que os movimentos não precisam ter sentido. Senti vontade de parar, embora a janela continuasse a dança dela, indo, vindo e rangendo. No final das contas, hoje foi melhor que a última vez em que fiz o trabalho sozinha.
Graça



