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fotografei essa vitrine em Cabo Verde porque achei a cara da Gracinha, com caldas de pavão e tudo o mais...
Acabo de chegar de uma semana em Cabo Verde, com mais 110 artistas da dança cearense. Infelizmente Gracinha não foi. Mas esteve conosco o tempo inteiro, nas cores e na alegria que compartilhamos, na simplicidade dos modos de existência, na largueza dos sorrisos, na pureza dos olhares e na potência dos encontros.
“É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe, é assim como a luz no coração…” (Vinícius de Morais)
Andréa
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O apelido de Graça é Pavão.
“Pavão misterioso
Pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo, oh!
Que não é certo não…
Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar…”
(Pavão Misterioso, Ednardo)
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Sinto que o nosso trabalho agora tem mais consistência, mas isso é pra mim particularmente, pois consistência esse trabalho sempre teve, desde a idéia, só que agora eu sinto isso no meu corpo. Consigo repetir algumas frases, sem sentir tanto incômodo. Ontem, assisti a apresentação de um trabalho do Curso Dança e Pensamento e escutei uma coisa que tem tudo a ver com o nosso trabalho, …“o segredo é repetir, repetir, repetir, até ficar diferente”… Sinto o nosso trabalho em outro estágio. Conseguimos ver os movimentos e acrescentar ou por outras coisas neles.
Andréa falou uma palavra hoje que foi definitiva pra mim: d e l i c a d e z a. Isso foi um “clic” nesse trabalho, e foi isso que me indicou a direção de um caminho. Outra coisa muito importante e de extrema relevância foi a necessidade do “estar presente”. Fundamental. Estar presente pra não perder o fio da meada. Sinto como uma concretização do trabalho. Quando digo isso não sinto “trabalho pronto”, até porque ele não ficará pronto, mas eu sei o caminho a seguir. Sei também que vou me perder mil vezes nesse caminho, o importante é ter essa consciência de se perder e se achar, ter a consciência, mas, não a certeza, porque nada é certo, tudo pode mudar sempre. Eu adoro isso e muito mais adoro sentir isso de forma verdadeira. Não é só na palavra é no próprio sentido. Isso é só o começo, mas que bom que chegamos ao começo!! E com tudo isso, eu tenho que tomar cuidado pois sei que tenho a maior facilidade para automatizar o movimento e isso perde o sentido, o caminho, perde tudo. Já sei que por muitas vezes vou ter que começar. Mas, isso é também, muito bom!
Graça
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Trabalhamos muito e eu senti que o resultado foi muito bom. Chegamos na sala eu e Sâmia e iniciamos o trabalho. Fiz o exercício de respiração e iniciei alguns exercícios corporais que havia feito no encontro anterior, estamos quase numa partitura ou um pedaço dela. Partimos do que foi elaborado no encontro anterior. Repeti várias vezes, sabendo (não com muita consciência), que nunca fazemos o mesmo exercício duas vezes. Eu já sei disso, entretanto meu corpo ainda parece duvidar dessa consciência, pois fica sempre beirando a busca de experimentações novas. Mesmo assim, me forço e me esforço a repetir. Isso é um exercício pra mim.
Quando Andréa chegou, (nem percebi, pois estava trabalhando de olhos fechados). Fico impressionada como ela anda leve, ninguém percebe. Acho incrível! Conversamos um pouco sobre o trabalho e passamos para outras experimentações depois de repetir bastante os movimentos anteriores.
Uma coisa nova!!!! Hoje, através dos meus movimentos, eu consigo me remeter à Cultura Popular Tradicional. Anteriormente, nesse trabalho eu só conseguia sentir o Flamenco, por mais que Andréa identificasse os movimentos das danças folclóricas, eu não conseguia sentir. Hoje, isso é muito claro tanto na minha cabeça quanto no meu corpo.
Nesse trabalho de hoje, pensei em várias manifestações da Cultura Tradicional, pinçando um gestual daqui, um movimento dali, chegando a seqüenciar algumas frases. Trabalhamos muito e gostei bastante. Começo a me divertir de novo. Esse trabalho não tem mais peso pra mim. Comecei a brincar, lembrando os brinquedos cantados, as brincadeiras de roda, movimentos da dança do Coco, dos Orixás e do Maracatu. Atentei que todas essas manifestações têm origem africana (negra), mas isso foi por acaso, não tive a intenção, tudo partiu de movimentos com mãos na cintura. Depois disso passei por alguns movimentos da dança do São Gonçalo e Cana Verde que têm origem portuguesa (branca), não houve uma organização de pensamento, foi acontecendo e de repente acredito que achamos o caminho. Sinto-me extremamente satisfeita nesse instante.
Graça
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Entrar em outro processo é sempre uma caixinha de surpresas, mas começar um processo com uma pessoa alheia ao nosso cotidiano é nos colocar de frente a um universo de possibilidades antes nunca tocado.
Graça. Divina, alegre.
Um corpo sorridente, cheio de memórias de uma vida de sertão, cantigas de roda, procissão. Mãos que fazem castanholas titirintar no espaço dançado com firmeza e prontidão. Um corpo apaixonado pelo Coco e não gosta do Torém – não gosta porque nessa dança não se pinota. Lagarta pintada quem foi que te pintou? Quando só, se perde num mundo desconhecido, menina-mulher que não se conduz só ou ainda não aprendeu. Autonomia, mulher, vai e trace seu dançar, pule, cante,conduza seu espaço e encontre vazios que poderão ser chaves para um trabalho investigativo, voe se possível. Entre suas graças, surge um altar recriado por suas coisinhas, um chale, uma rosa amarela, brincos, suas castanholas, leque e um pavão maquiado.
Mas Graça ganhou autonomia, aprendeu a voar, virou planta, tateou a parede e foi.
Gracinha virou uma mocinha, anda com suas próprias pernas. Entre requebrados e vestígios de um misto de danças populares ela se move pelo espaço. Está tudo ali, gravado em seu corpo-brincante, seu corpo-dançador, seu corpo-graça. De cantigas e riso fácil vai se construindo um caminho.
Sâmia
Publicado em anotações para fazer Graça, Diário de Bordo - Andréa | 1 Comentário »
O trabalho será um pouco diferente, hoje. O encontro é comigo mesma. Farei o trabalho, sozinha. Propus-me a isso desde o encontro passado. Cheguei na sala às 8:45h. Não sei quanto tempo vou permanecer. Como estou sozinha, vou inverter um pouco o processo e comecei escrevendo. Estou nesse momento andando na sala, sentindo os pés no chão demoradamente a cada passo, como que tentando absorver algum movimento impregnado nesse chão. Trouxe um cd, mas não tenho vontade de usá-lo. Trouxe os objetos pessoais, mas também não vou usá-los. Continuo andando.
Avistei um telão branco enorme do outro lado da sala, do tamanho da parede. Aproximei-me e sentei-me no chão diante dele. Olhei, olhei, olhei…. Pensei que aquele espaço branco é cheio de possibilidades e podem conter as mil cores de Salvador Dali. Ele sabe se movimentar muito bem. Ele se deixa levar pelo vento e faz movimentos perfeitos. O tecido dança dentro da tela, sem precisar sair dela e mesmo assim, tem uma movimentação muito rica. Ele se movimenta em todas as direções.
Comecei o meu exercício de respiração. Ao terminar o exercício de respiração abri os olhos e deparei-me com o teto. Pela primeira vez em tantos encontros, olhei para o teto da sala. Pensei que relação ele poderia ter com a minha dança. Levantei-me e dei alguns saltos em direção a ele, é lógico que eu sabia que não iria alcançar, isso era apenas um movimento e uma intenção.
Pensei nos sons do encontro passado e me detive a escutá-los. De repente, achei muito interessante o ranger de uma janela que estava sem apoio para segurá-la. Parei nesse som e também no movimento daquela janela que ia e voltava, ao som do vento. Resolvi seguir o movimento da janela, que seguia rangendo num balancê de ida e volta. Ora ritmado pra lá e pra cá, ora ia e demorava a voltar, dependendo do ritmo do vento. No chão, segui o vai e vem a janela. Por vezes ela ía e meu corpo ía, meu corpo voltava e ela ficava. Fiz isso por um longo tempo. Quando olhei a hora, só tinha passado dez minutos. Não acreditei. Achei que tinha se passado tanto tempo e só havia passado dez minutos! Comecei a ficar impaciente. Andei de novo pela sala e vi uma corda pendurada, do teto até a porta que dá para o jardim, amarrada para exercícios com tecido. Pendurei-me nela para me balançar. Não agüentei. Minhas mãos doeram muito. Como os meninos conseguem fazer isso? Fiz mais alguns movimentos de pé. Aqui e ali achava sem sentido. Eu sei que os movimentos não precisam ter sentido. Senti vontade de parar, embora a janela continuasse a dança dela, indo, vindo e rangendo. No final das contas, hoje foi melhor que a última vez em que fiz o trabalho sozinha.
Graça
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Gracinha hoje virou planta. Escolheu o jardinzinho para abandonar o corpo e permanecer.
Falamos sobre a diferença entre percepção e sensação. Isso porque ela contou da dificuldade de permanecer em sala trabalhando sozinha.
Hoje brincamos de cegueira. E ela cruzou mundos, de olhos fechados.
“Todo cego tem o direito de dizer ‘eu me imagino’. E se imaginar é ter imagem.” (Eugen Bavcar)
Permanecer, para descobrir pausas e silêncios. Durar, ao invés de suceder. Duração é diferente de sucessão, Bergson já nos disse.
Andréa
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Em nosso encontro de hoje conversei um pouco com Andréa e ela me deixou na sala para que eu começasse o trabalho. Amontoei meus objetos em um canto da sala e fiz o meu costumeiro exercício de respiração. Adotei esses exercícios de respiração para minha vida, me faz muito bem. Depois escolhi um objeto para trabalhar, uma mantilha de renda vermelha. Não planejei, simplesmente escolhi. Fui surpreendida por Andréa, a me fazer uma observação. Eu estava trabalhando o objeto seguindo a fluidez do tecido. É como se eu tivesse colocado meu corpo em segundo plano. O tecido estava levando meu corpo e não o meu corpo levando o tecido. Deixei a mantilha para lá e continuei meu trabalho corporal.
Quase no final do encontro, Andréa me fez uma proposta nova, um novo desafio. Trabalhar todos os movimentos que eu já absorvera, dançando. Trabalhar nesses movimentos, a velocidade, tônus muscular, etc. Ela me deixou sozinha e eu me propus a trabalhar por trinta minutos. Imediatamente ao iniciar o trabalho, veio o juízo de valor, “o que fazer?” Continuei trabalhando, mais por disciplina do que por vontade. Foi uma meia hora muito longa. Senti o tempo inteiro, a sensação do “não sei fazer”. Senti muita dificuldade. Senti dificuldade até para descrever a sensação. Mas fiz, não sei o quê.
Graça
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Quando decidi propor este trabalho para Gracinha, há alguns meses, a minha vontade primeira foi de ter a oportunidade de dirigi-la em cena. Criar um novo contexto onde pudesse dispor – ao mesmo tempo no espaço íntimo da sala de trabalho e no espaço público da cena – de sua vitalidade e alegria, que tanto me atraem, assim como de sua finíssima inteligência corporal.
Junto a isso vem tudo o mais que me mobiliza, o interesse pelas diferentes formas de habitar o mundo, os modos de existência, a forma como isso se inscreve no corpo e na escrita dramatúrgica de cada artista.
Como diretora, a questão de sempre: como tocar em tudo isso? O quanto de delicadeza e habilidade me exige essa aproximação? Apesar da infinidade de questões que surgem, na convulsão de um processo criativo, bastam-me essas para que um desafio se atualize em desejo.
Clarice, sempre, aos possíveis leitores da Paixão segundo G.H.: “(…) Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar.(…)”
Esse tempo de aproximação – disfarçado sob o nome de pesquisa – é um investimento na consistência de um encontro. Dirigir um trabalho é diferente de conduzir uma aproximação. Nem sempre conduzimos aproximações em nossos processos criativos, e essa questão me interessa, porque intuo que ela está no cerne de uma possível autonomia em nossas maneiras de fazer, éticas e estéticas. Tem a ver com formas de habitar o mundo, que tem a ver com produção de sentido, que tem a ver com dançar, que tem a ver com escrita dramatúrgica, que tem a ver com dar a ver, que tem a ver com estética, que tem a ver com política, que tem a ver com o que nos tornamos, e assim por diante.
Andréa
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